Manuela Dias adiantou a trama da artista plástica; em 1988, ida de Heleninha ao AA acontecia apenas no fim
Por Leonardo Ribeiro — Rio de Janeiro
Foto: Reprodução e Léo Rosário/TV Globo/Divulgação
É contando um dia de cada vez sem beber que Heleninha (Paolla Oliveira) tem tentado superar o alcoolismo em “Vale tudo”. Após internações e tentativas de melhora, a artista plástica encontrou um apoio transformador ao frequentar reuniões do Alcoólicos Anônimos. Lá, ela compartilha e ouve experiências de quem sofre da mesma doença. E o impacto disso não foi positivo apenas para a personagem. Na vida real, desde que as cenas começaram a ser exibidas na Globo, o AA viu aumentar a procura pela instituição.
— Na primeira versão de “Vale tudo”, a Heleninha só vai ao AA no fim da novela. A Manuela Dias (autora da versão atual) antecipou essa história e foi muito bom. Porque com mais tempo no ar, a gente cria identificação com a irmandade, gera compaixão em vez de julgamento. Isso motiva as pessoas a procurarem ajuda e traz esperança para quem sofre dessa doença. Eu fico muito feliz — celebra Paolla.
Em um levantamento feito pela irmandade, desde 15 de agosto, quando a filha de Odete (Débora Bloch) frequentou uma reunião, as buscas na web pelo Alcoólicos anônimos aumentou 150%. Os números nos perfis da instituição nas redes sociais também cresceram. E, na cidade do Rio de Janeiro, a chamada “linha de ajuda” — o telefone em que pessoas podem fazer um primeiro contato, seja para ter um conforto ou saber como o AA funciona — recebeu mais de 170 ligações em cinco dias.
— É muito importante mostrar o nosso programa de recuperação, desmistificar a doença, isso ajuda. Em várias reuniões pelo Brasil, temos notado o impacto da novela. Esses dias, em Realengo, tivemos a chegada de duas companheiras que disseram que se identificaram nas cenas da Heleninha — diz Raul N, diretor do escritório de serviços locais de Alcoólicos Anônimos do Rio.
Tanto Paolla quanto equipes da novela frequentaram reuniões para abordar o tema.
— O AA não faz uma consultoria formal, mas antes do remake estrear, recebemos com carinho a Paolla e o diretor Thomaz Cividanes em uma de nossas reuniões. Também auxiliamos a equipe com materiais, tiramos dúvidas quando solicitados — explica Raul.
Desde então, e com o avanço da novela, relatos de alcoolistas não param de chegar para a intérprete de Heleninha:
— Recentemente, uma mulher disse que estava, nas palavras dela, fraquejando (em relação à bebida) há alguns dias, estava prestes a recair mais uma noite, até que ligou a TV e se viu na Heleninha. Foi então que ela disse: “Não quero e não vou passar por isso”. Ela me disse, com orgulho, que Heleninha a salvou naquela noite. Fiquei emocionada.
A irmandade não mantém registro dos membros, por isso não é possível calcular quantas pessoas frequentam a instituição. Só na capital fluminense, são cerca de 200 pontos de encontro. Há também reuniões on-line. E todas as atividades são gratuitas. O AA se mantém com doações.
— Para frequentar um grupo de mútua ajuda, o único requisito é que a pessoa fale sobre seu desejo de parar de beber e de se tornar membro do AA. Não há convencimento, há trocas de experiências sobre como encontram forças e renovam a esperança de que é possível manter-se sóbrio a cada dia — diz Gabriela Henrique, psicóloga voluntária do AA.
O alcoolismo já foi retratado em outras novelas da Globo, e o Alcoólicos Anônimos sugiu nessas tramas como um apoio fundamental para a recuperação dos personagens. O autor Manoel Carlos, por exemplo, abordou o tema em mais de uma produção.
Em “Por amor” (1997), Orestes (Paulo José) não conseguia largar o vício, mal trabalhava e, só depois de superar o medo de envergonhar a filha caçula, Sandrinha (Cecília Dassi), é que conseguiu buscar ajuda.
Já em “Mulheres apaixonadas” (2003), Santana (Vera Holtz) chegou a beber perfume no auge do vício. Em “Páginas da vida” (2006), Eduardo Lago afundava as mágoas na bebida e só saiu do fundo do poço com o apoio da filha Marina (Marjorie Estiano). E em “Viver a vida”, Bárbara Paz interpretou Renata, que também sofria de anorexia, por parar de se alimentar para beber mais.
A autora Lícia Manzo também incluiu a temática em “Um lugar ao sol” (2021), por meio da personagem Julia (Denise Fraga). Mais recentemente, foi Walcyr Carrasco quem escreveu sobre o assunto em “Terra e paixão” (2023). Andrade (Ângelo Antônio) tinha até um comportamento violento quando bebia. Ele perdeu o emprego, o casamento e o contato com o filho. A virada se deu quando ele buscou o AA.
fonte:https://extra.globo.com/
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