segunda-feira, 30 de maio de 2022

Economia, estudos, carreira, pandemia: número de nascimentos segue em tendência de queda na região de Presidente Prudente


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Foto: FreeStock/Unsplash

O número médio de filhos por mulher, na Região Administrativa de Presidente Prudente (SP), caiu de 1,83, em 2000, para 1,55, em 2010, e 1,50 em 2020.
Por Stephanie Fonseca, g1 Presidente Prudente
Segue em tendência de queda o número de nascimentos no Oeste Paulista. Nos dois primeiros meses de 2022, a Região Administrativa de Presidente Prudente (SP) soma 1.476 nascidos vivos, conforme levantamento junto à Fundação Sistema Estadual de Análise de Dados (Seade). Caso o número se mantenha na mesma faixa nos próximos bimestres, será o menor ou o segundo menor índice dos últimos 10 anos.
Conforme observado pelo g1, o número de nascimentos vem em declínio desde 2001, ano em que houve o registro de 12.203 nascidos vivos.
As estatísticas mais baixas são vistas a partir de 2019, com menos de 10 mil nascimentos. Até então, o menor número anual era de 10.001, referente ao ano de 2007. Veja:
2019: 9.798 nascidos vivos
2020: 9.480 nascidos vivos
2021: 8.926 nascidos vivos
2022
A Região Administrativa de Presidente Prudente soma 1.476 nascidos vivos em 2022, sendo 749 meninos e 727 meninas.
No comparativo entre os meses de janeiro e de fevereiro, esse ano o índice de nascimentos na região de Presidente Prudente caíram em relação aos mesmos períodos nos anos de 2020 e 2021:
Janeiro
2020: 797 nascidos vivos
2021: 811 nascidos vivos
2022: 753 nascidos vivos
Fevereiro
2020: 809 nascidos vivos
2021: 790 nascidos vivos
2022: 723 nascidos vivos
Ainda não há dados disponíveis sobre março e abril.
Ranking
O maior índice vem da cidade de Presidente Prudente, com um total de 403 nascidos vivos. Na sequência, estão:
Dracena (SP), com um total de 74 nascidos vivos
Osvaldo Cruz (SP), com um total de 67 nascidos vivos
Presidente Epitácio (SP), com um total de 64 nascidos vivos
Adamantina (SP), com um total de 56 nascidos vivos
Rancharia (SP), com um total de 52 nascidos vivos
Pirapozinho (SP), com um total de 49 nascidos vivos
Presidente Venceslau (SP), com um total de 47 nascidos vivos
Álvares Machado (SP), com um total de 45 nascidos vivos
Regente Feijó (SP), com um total de 41 nascidos vivos
Teodoro Sampaio (SP), com um total de 39 nascidos vivos
Martinópolis (SP), com um total de 38 nascidos vivos
Santo Anastácio (SP), com um total de 34 nascidos vivos
Panorama (SP), com um total de 32 nascidos vivos
Junqueirópolis (SP), com um total de 30 nascidos vivos
Ouro Verde (SP), com um total de 27 nascidos vivos
Rosana (SP), com um total de 27 nascidos vivos
Mirante do Paranapanema (SP), com um total de 25 nascidos vivos
Lucélia (SP), com um total de 24 nascidos vivos
Tupi Paulista (SP), com um total de 24 nascidos vivos
Presidente Bernardes (SP), com um total de 19 nascidos vivos
Paulicéia (SP), com um total de 17 nascidos vivos
Euclides da Cunha Paulista (SP), com um total de 16 nascidos vivos
Pacaembu (SP), com um total de 16 nascidos vivos
Taciba (SP), com um total de 15 nascidos vivos
Flórida Paulista (SP), com um total de 13 nascidos vivos
Caiabu (SP), com um total de 12 nascidos vivos
Iepê (SP), com um total de 12 nascidos vivos
Tarabai (SP), com um total de 11 nascidos vivos
Irapuru (SP), com um total de 10 nascidos vivos
Monte Castelo (SP), com um total de 10 nascidos vivos
Salmourão (SP), com um total de 10 nascidos vivos
Santo Expedito (SP), com um total de 10 nascidos vivos
Anhumas (SP), com um total de 9 nascidos vivos
Inúbia Paulista (SP), com um total de 9 nascidos vivos
Alfredo Marcondes (SP), com um total de 8 nascidos vivos
Nantes (SP), com um total de 8 nascidos vivos
Narandiba (SP), com um total de 8 nascidos vivos
Caiuá (SP), com um total de 8 nascidos vivos
Piquerobi (SP), com um total de 7 nascidos vivos
São João do Pau d'Alho (SP), com um total de 7 nascidos vivos
Marabá Paulista (SP), com um total de 6 nascidos vivos
Nova Guataporanga (SP), com um total de 6 nascidos vivos
Mariápolis (SP), com um total de 5 nascidos vivos
Sagres (SP), com um total de 5 nascidos vivos
Sandovalina (SP), com um total de 5 nascidos vivos
Estrela do Norte (SP), com um total de 4 nascidos vivos
Indiana (SP), com um total de 4 nascidos vivos
Emilianópolis (SP), com um total de 3 nascidos vivos
Ribeirão dos Índios (SP), com um total de 3 nascidos vivos
Flora Rica (SP), com um total de 2 nascidos vivos
Santa Mercedes (SP), com um total de 1 nascido vivo
Pracinha (SP), com um total de 0 nascido vivo
Pertencentes à região de Marília (SP) na divisão administrativa da Seade, temos ainda:
Parapuã, com um total de 20 nascidos vivos
Rinópolis, com um total de 13 nascidos vivos
João Ramalho, com um total de 8 nascidos vivos
Outras regiões
O comparativo por Região Administrativa do Estado de São Paulo é o seguinte para 2022:
RA de Araçatuba (SP): 1.236 nascidos vivos
RA de Barretos (SP): 788 nascidos vivos
RA de Bauru (SP): 2.068 nascidos vivos
RA de Campinas (SP): 12.607 nascidos vivos
RA Central: 1.765 nascidos vivos
RA de Franca (SP): 1.395 nascidos vivos
RA de Itapeva (SP): 978 nascidos vivos
RA de Marília (SP): 1.670 nascidos vivos
RA de Presidente Prudente: 1.476 nascidos vivos
RA de Registro (SP): 474 nascidos vivos
RA de Ribeirão Preto (SP): 2.546 nascidos vivos
RA de Santos (SP): 3.060 nascidos vivos
RA de São José do Rio Preto (SP): 2.805 nascidos vivos
RA de São José dos Campos (SP): 4.467 nascidos vivos
RA de Sorocaba (SP): 5.259 nascidos vivos
RM de São Paulo (SP): 38.256 nascidos vivos
Pandemia pode ter influência
Conforme avaliou ao g1 a demógrafa da Seade, Lúcia Mayumi Yazaki, “os dados preliminares para os primeiros meses de 2022 parecem indicar continuidade na diminuição do número de nascimentos”. “Entretanto, ainda é cedo para afirmar esta tendência, pois estes dados são revisados mensalmente, assim como aguardar o total do ano”, apontou.
“A fecundidade em São Paulo e em suas regiões já atingiu valores bastante baixos (1,5 filho por mulher em 2020), bem abaixo do nível de reposição; assim, acredita-se que esta queda será cada vez menor e se manterá estável ao longo dos anos”, expôs Lúcia.
Segundo explicou a demógrafa ao g1, a fecundidade pode ser expressa, em geral, por dois indicadores:
Número médio de filhos por mulher, um indicador mais refinado, que leva em consideração a fecundidade em cada um dos grupos etários da idade reprodutiva (de 15 a 49 anos)
Taxa de fecundidade geral, que corresponde ao número de nascidos vivos por 1.000 mulheres em idade reprodutiva
Para áreas maiores, é possível calcular o primeiro indicador, mas, para áreas menores, utiliza-se o segundo, por conta do volume de nascimentos.
O número médio de filhos por mulher, para a Região Administrativa de Presidente Prudente, reduziu de 1,83 filho por mulher, em 2000, para 1,55, em 2010, e 1,50 em 2020.
Já as taxas de fecundidade para a mesma área são de:
2000: 56,92 nascidos por mil mulheres de 15 a 49 anos
2010: 45,23 nascidos por mil mulheres de 15 a 49 anos
2011: 41,57 nascidos por mil mulheres de 15 a 49 anos
“A redução no número de nascidos vivos deve-se à queda da fecundidade ao longo dos anos”, segundo esclareceu ao g1 a demógrafa, indicando ainda o gráfico acima.
Lúcia ainda apontou que “a fecundidade em São Paulo vem reduzindo desde a década de 1980; a partir de meados dos anos 2000, tanto no Estado, como na região [de Prudente], houve um período em que a fecundidade se manteve estável, mas, a partir de 2018, a queda voltou a ser observada, reduzindo assim o número de nascimentos”.
“É possível que em 2021 tenha havido influência da pandemia [de Covid-19] na redução dos nascimentos, mas não foram realizados estudos que demonstrem esta causalidade”, indicou ao g1.
De acordo com dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), a fecundidade em 2010, ano do último Censo Demográfico, foi de 1,9 filho por mulher. Segundo apontou ao g1 Lúcia Mayumi Yazaki, estimativas para 2020 indicam uma taxa de aproximadamente 1,7 filho para o país. “Ou seja, a região de Presidente Prudente apresenta taxas inferiores à média nacional”, finalizou.
Geógrafa, demógrafa e pós-doutoranda na Universidade Estadual Paulista (Unesp) em Presidente Prudente, Kesia Anastácio Alves da Silva acrescentou ao g1 que, desde a década de 1970 vem ocorrendo um processo de redução no número de nascimentos, mas que esse declínio foi maior em 2020, ano em que acentuou-se a pandemia da Covid-19 no Brasil.
Ainda não há estudos que comprovem essa ligação, mas o impacto da pandemia pode ser comprovado se, a partir de agora, houver aumento no número de nascimentos.
“Mas tudo aponta que, principalmente, os casais mais jovens optaram por não ter filhos durante a pandemia, por riscos de mortalidade, tanto da criança quanto da mãe, por medo de ir para o hospital durante a pandemia”, comentou.
Um exemplo citado por Kesia foi quando houve a questão do zika vírus. Na ocasião, houve diminuição no número de nascimentos, “assim como o gráfico mostra um declínio maior no número de nascimentos no período da pandemia, indicando que a Covid pode ter influenciado nesse processo decisório de ter ou não ter filhos”.
Redução da população
Kesia explicou ao g1 que para entender o processo de redução, seja na região ou no Brasil, é preciso “visitar” o passado, pois, “desde década de 1970, o Estado de São Paulo e o Brasil vêm declinando no número de nascimentos”. “Esse processo de redução no número de nascimentos está ligado num processo que a gente chama de transição demográfica”, disse.
“A transição demográfica é um processo de redução no número de óbitos e nascimento, que passa por algumas fases das sociedades, principalmente modernas. Por exemplo, no Brasil, em 1940, a gente tinha um número elevado de mortes e de nascimentos, o que fazia com que o crescimento populacional não fosse tão alto, porque, na mesma medida em que nascia muita gente, morriam muitas pessoas”, contou ao g1.
Seguindo para a década de 1950, houve uma grande redução na mortalidade devido às revoluções médico sanitárias. “Só que as taxas de fecundidade, as taxas de natalidade no Brasil continuavam altas e foi o que deu o 'boom' populacional entre 50 e 60”, explicou.
“A partir da década de 70, a gente começa a observar uma redução no número de nascimentos, e essa redução vem progredindo até hoje, a gente observa esse processo de redução. Ele não é tão drástico, tão intenso quanto foi no passado, mas ele prossegue”, falou ao g1.
“No Brasil, a taxa de fecundidade total [média de filhos por mulher até o fim do ciclo reprodutivo] em 1960 era de aproximadamente 6,3 filhos por mulher. Em 2010, essa taxa chegou a 1,9 por mulher. Abaixo do que a gente chama de índice de reposição”, que seria de 2,1 filhos por mulher, conforme indicou a pós-doutoranda.
Esse índice de reposição de uma cidade representa quantos filhos uma mulher deve ter para que a população de uma determinada sociedade continue se retroalimentando.
“Caso continuemos assim, vai chegar um período em que a população vai começar a diminuir. Essa é a realidade, e as projeções demográficas indicam que, a partir de 2050, começaríamos a presenciar um processo de redução da população brasileira”, comentou.
Kesia ainda apontou que em 2020, no Estado de São Paulo, a taxa de fecundidade total está em 1,56 filho por mulher. Já na região de Presidente Prudente, a taxa de fecundidade total é de 1,5 filho por mulher. No Brasil, é de 1,7. “Presidente Prudente é uma das regiões em que a taxa de fecundidade total é menor”.
Maternidade, carreira, estudos…
Mas não foi só a pandemia da Covid-19 que influenciou na quantidade de filhos que tem um casal. Como citado por Kesia, esse número vem reduzindo há décadas e tem vários motivos. “O que a gente notou é que houve uma mudança no papel da mulher na sociedade e também uma mudança na forma de conceber as famílias”.
“A entrada da mulher no mercado de trabalho, a sua maior escolarização, até o processo de vida das pessoas dentro da cidade, a partir do momento em que as pessoas passaram a viver mais na cidade, mudou a mentalidade, os processos de urbanização, mudou as lógicas como as pessoas concebem a família, a sua relação com emprego e tudo mais”, esclareceu a pesquisadora ao g1.
Contudo, Kesia falou que entre os fatores condicionantes que geraram a redução na taxa de fecundidade estão a entrada da mulher no mercado de trabalho, sua maior escolarização, e também um acesso maior a métodos contraceptivos.
Segundo a pós-doutoranda, o fato de a mulher ser também força de trabalho fez com que a prioridade deixasse de ser totalmente a família, como era antes.
“Fora isso, tem também a mudança na concepção do que os filhos significam no contexto das famílias: antes os filhos eram considerados, falo até grosseiramente, ativos, força de trabalho no âmbito da família, a gora os filhos também são considerados passivos, no sentido de não só ser uma força de trabalho, mas uma pessoa que tem todo o custo de você gerar uma criança, você tem a escola, a comida, roupa, e a família passou a considerar isso”, comentou.
Além da concepção de filhos e a entrada da mulher no mercado de trabalho, bem como a maior escolarização, também houve mudança na nupcialidade. “As mulheres passaram a casar mais tarde e isso influi também na redução no número médio de filhos por mulher”, avaliou.
“O que nós observamos hoje também é que as mulheres estão postergando a maternidade”. Kesia exemplificou que antes no Brasil, inclusive no Estado e na região de Presidente Prudente, a faixa etária da mulher que tinha filhos era entre 20 e 24 anos, número que agora está entre 25 e 29 anos.
“Antes, por exemplo, até os anos 2000, 85% dos nascimentos ocorriam entre 20 a 29 anos; hoje 65% dos nascimentos ocorrem nessa idade. Ou seja, as mulheres estão tendo mais filhos após os 30 anos. Isso se deve às escolhas e uma maior priorização do trabalho, da carreira profissional”, explicou.
E, ainda que as mulheres tenham filhos mais cedo, o ciclo reprodutivo é encerrado mais cedo. “Por exemplo, tive um filho com 20 anos, aí tive dois filhos aqui e não tenho mais depois. Então, ao mesmo tempo em que postergam a maternidade, aquelas que começam mais cedo encerram também mais cedo a reprodução”, explicou.
“Tem esses dois fatores combinados, mas o que a gente observa hoje com muito mais intensidade é essa postergação da maternidade”, pontuou ao g1.
Também foram notadas mudanças nos domicílios e nas famílias, que estão muito mais reduzidas. O fato pode indicar que futuramente pode não haver convivência entre gerações, netos e avós, por exemplo.
“Na minha avaliação, há mudanças nas relações de gênero, no sentido de que as mulheres têm um pouco mais de empoderamento no processo decisório de ter ou não ter filhos, ter um maior acesso a métodos contraceptivos, e também escolhem mais o que querem, carreira profissional, estudos”, indicou.
Segundo Kesia, há também entre os casais quase que o cálculo de quantos filhos ter e qual o impacto de uma família maior na economia domiciliar.
“Essas são questões que passaram a fazer parte do processo decisório de ter ou não ter filhos e quando a gente pensa nisso, que a carreira pesa, a gente tem um maior empoderamento da mulher, mas não tem ainda uma total divisão sobre o cuidado dos filhos, e isso pesa. Se eu não tenho uma total divisão e o cuidado maior ainda é da mulher sobre filhos e tudo mais”, pontuou ao g1.
“Essa equidade de gênero ainda não é total e influi no processo decisório, porque, se é mais pesado pra mim e eu ainda tenho que trabalhar, cuidar da casa, ter filhos, não posso mais ter três, quatro filhos”, destacou.
Ainda segundo comentou Kesia, uma pesquisa indica que na Europa há um patamar de que o número de filhos tidos é menor do que o desejado. E que o Brasil começou essa tendência de que o número real é menor do que o desejado.

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