segunda-feira, 8 de setembro de 2025

Cerca de 65% das mulheres sofreram algum tipo de violência obstétrica no Rio de Janeiro, aponta pesquisa da Fiocruz

Lançado nesta quarta-feira, estudo faz parte da segunda edição do 'Nascer no Brasil' e traz dados inéditos sobre puérperas, cesarianas, amamentação e saúde mental materna

 Por Esther Almeida* — Rio de Janeiro


Foto: Divulgação

A pesquisa "Retratos do Parto e do Nascimento no Estado do Rio de Janeiro", lançada ontem pela Fiocruz, aponta que 65% das mulheres sofreram algum tipo de violência obstétrica. Segundo as autoras, o levantamento poderá ampliar o debate sobre o tema, além de contribuir para que a violência obstétrica seja considerada como uma das formas de violência contra a mulher.

Os dados, que fazem parte da segunda edição do estudo "Nascer no Brasil", foram coletados a partir de 1.923 entrevistas com mulheres que estavam internadas — tanto para o parto, quanto por perda fetal — em 29 maternidades públicas e privadas de 18 municípios fluminenses, entre os anos de 2021 e 2023.

— Nessa pesquisa, aprofundamos o tema da violência obstétrica, fazendo mais de 50 perguntas. No estudo anterior, apenas perguntávamos se a mulher havia ou não lidado com esse tipo de violência, mas, no atual, buscamos ajudá-las a entender o que realmente é a violência obstétrica — explica a biomédica e professora da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj), Tatiana Henriques, uma das pesquisadoras envolvidas no estudo.

A pesquisa indica que adolescentes e mulheres acima dos 35 anos, com baixa escolaridade e renda, estão mais vulneráveis à violência obstétrica, assim como mães solo e mulheres pretas. Entre as manifestações de violência mais comuns estão toques vaginais inadequados (46%), negligência (31%), abuso psicológico (22%), estigma e discriminação (8%) e abuso físico (3%).

Mães de primeira viagem, além de mulheres que tiveram um trabalho de parto prolongado ou optaram pelo método natural, também apresentaram maiores prevalências de violência obstétrica em algumas das dimensões investigadas.

De acordo com o levantamento, os casos de violência obstétrica são mais recorrentes no Sistema Único de Saúde (SUS), mas ainda bastante presentes nos hospitais privados.

— É um mito dizer que a violência obstétrica não existe na rede privada, uma vez que é um problema macro, que deve ser considerado fruto da violência contra a mulher, enraizada na nossa sociedade — pondera Tatiana.

Segundo a coordenadora da pesquisa, Maria do Carmo Leal, o levantamento também chama atenção para o aumento do número de cesarianas. Em municípios do interior do estado, o percentual chega a 66%, enquanto em hospitais privados, alcança 85%. Os dados são considerados preocupantes, uma vez que o procedimento é recomendado pela Organização Mundial de Saúde (OMS) apenas em casos emergenciais.

— Alguns médicos tentam convencer as mulheres de que elas não dão conta de parir seus filhos, mas isso não é verdade — afirma Maria do Carmo. — Uma cesariana desnecessária pode causar complicações anestésicas, questões de trombose e, por se tratar de um corte no útero, pode ainda dificultar uma gravidez futura.

Ao traçar o perfil das puérperas, o estudo determina uma relação direta entre saúde e sociedade, atentando-se a singularidades como idade, cor de pele, escolaridade e classe social. Conforme os dados, um em cada dez partos aconteceu em adolescentes, enquanto o dobro ocorreu em mulheres com idade materna avançada — ou seja, 35 anos ou mais. Entre as entrevistadas, a maioria era negra e vivia com seus companheiros.

Entre os diferentes perfis de mães, as adolescentes são as que enfrentam mais dificuldades em ter uma rede de apoio, enquanto as mulheres mais velhas são as mais vulneráveis a síndromes hipertensivas, diabetes gestacional, descolamento prematuro de placenta e morbidade materna grave.

No que tange a saúde mental, o relatório aponta que sintomas de depressão, ansiedade e estresse pós-traumático associado ao parto, são mais frequentes entre mulheres de baixa escolaridade e histórico de transtornos mentais.

A maioria das mulheres entrevistadas, tanto na região metropolitana quanto no interior, utilizavam o SUS. Aquelas que tiveram seus filhos em hospitais públicos demonstraram uma chance quase dez vezes maior de entrar em trabalho de parto, quando comparadas com as da rede privada.

A maioria das mulheres entrevistadas, tanto na região metropolitana, quanto nos municípios do interior, utilizavam o SUS. Aquelas que tiveram seus filhos em hospitais públicos demonstraram uma chance quase dez vezes maior de entrar em trabalho de parto, quando comparadas com as da rede privada.

— Nesse setor, observou-se que, quando a parturiente entra em trabalho de parto, ela evolui para um parto vaginal quase tanto como no setor público. Entretanto, apenas 15% das mulheres da rede privada tiveram parto vaginal e o modelo da cesariana sem trabalho de parto é o que prevalece — lamentam as autoras da pesquisa.

Ser atendida em serviço público e ter um parto vaginal anterior foram as principais variáveis que contribuíram para a ocorrência do parto vaginal no estado. — A preferência da mulher pelo parto vaginal no final da gestação, a presença da doula e a oferta de analgesia peridural também foram fatores importantes — observam as pesquisadoras

Entre as maternidades analisadas, cerca de 30% das públicas possuíam uma unidade de tratamento intensivo adulto e neonatal (UTI/UTIN), frente a 85% das particulares. Nos serviços públicos e privados, a assistência durante o trabalho de parto, feita pelas enfermeiras, foi de 60% e 38%, respectivamente. A assistência ao parto, no entanto, marcou 23% e 17%, um percentual ainda baixo, uma vez que o acompanhamento das profissionais é recomendado pela OMS, e pode ser associado à diminuição do uso de intervenções e a proporção de cesarianas.

*Estagiária sob supervisão de Leila Youssef

fonte:https://extra.globo.com/

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