Por Fernando Moreira
Foto: Freepik
No senso comum, tendemos a elogiar idosos que têm uma visão positiva diante de situações complicadas e não muito claras. É o tal do "ver o copo meio cheio". A ciência, entretanto, tem uma visão nada romântica desse cenário. Não se tratam de "velhinhos fofos que encaram as adversidades e as incertezas numa boa".
A positividade na terceira idade pode ser um sinal de declínio cognitivo, de acordo com pesquisa conjunta das universidades de Tel Aviv e Cambridge. Segundo os cientistas, erros de processamento emocional podem ser potenciais marcadores precoces de neurodegeneração em vez de sinais de envelhecimento considerado "bem-sucedido".
Por muito tempo, quando idosos rotulavam consistentemente expressões faciais pouco claras como felizes, em vez de tristes ou raivosas, os cientistas celebravam isso como um saudável "viés de positividade". O estudo, entretanto, mostrou que idosos com "viés positivo" na vida obtiveram as pontuações mais baixas em avaliações cognitivas. Tomografias cerebrais mostraram redução em áreas vitais para o processamento emocional — as mesmas regiões que se deterioram no Alzheimer e em outras doenças neurodegenerativas.
Raiva, medo e tristeza produzem características faciais semelhantes e exigem processamento neural sofisticado para diferenciá-las. À medida que as habilidades cognitivas diminuem, o cérebro parece recorrer a interpretações mais simplórias e positivas de sinais sociais pouco claros. Esse processamento não é consciente, mas o resultado da deterioração do maquinário neural que antes ajudava as pessoas a navegar em situações emocionais com precisão.
No estudo, publicado na revista científica "Journal of Neuroscience", pesquisadores analisaram o comportamento de jovens e idosos. Enquanto adultos mais jovens conseguiam identificar com precisão emoções mistas, participantes mais velhos rotulavam cada vez mais expressões incertas como positivas, mesmo quando emoções negativas dominavam o rosto.
Demonstrar otimismo nem sempre é sinal de envelhecimento bem-sucedido. Estudos futuros deverão determinar se o "viés de positividade" pode ser usado para prever o declínio cognitivo ou simplesmente o acompanha. Os recentes resultados podem remodelar a forma como os médicos rastreiam problemas cognitivos. Avaliações atuais se concentram em testes de memória e atenção, mas alterações no processamento emocional podem surgir anos antes do surgimento dos sintomas tradicionais.
fonte:https://extra.globo.com/
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