segunda-feira, 6 de outubro de 2025

Quem matou Odete Roitman: autora de 'Vale tudo' escreveu dez finais, para cinco suspeitos; veja diferenças entre 2025 e 1988

Vilã interpretada por Débora Bloch na versão de Manuela Dias é assassinada nesta segunda (6); em 1988, elenco soube da identidade da criminosa na manhã do último capítulo, conta Dennis Carvalho 

Por Talita Duvanel — Rio de Janeiro


Foto: Arte O Globo

Numa suíte do Copacabana Palace, hotel que considera o máximo do luxo das terras tupiniquins, a Odete Roitman da atriz Debora Bloch sai de cena hoje no horário nobre da TV Globo. A empresária classista, racista, empoderada e transante morre na novela “Vale tudo” de Manuela Dias, mas em circunstâncias bem diferentes da versão original, escrita por Gilberto Braga, Aguinaldo Silva e Leonor Bassères. A começar pelo apetite do público em relação ao desfecho da trama.

De acordo com uma pesquisa do Datafolha, divulgada em setembro, os brasileiros que assistem à novela hoje (um em cada três) não queriam que a vilã acabasse num caixão. Dentre as 2.005 pessoas ouvidas em 113 cidades das cinco regiões do país, 47% preferem ver a dona da TCA na pobreza; outros 35%, na prisão; e só 4% concordam com a morte. Resultado bem diferente do levantamento de 1988, ainda que feito apenas em São Paulo, em que 38% preferiam ver a personagem de Beatriz Segall (1926-2018) com uma bala no peito. O Ibope fez a mesma consulta na década de 1980, no Rio, e descobriu que 49% apoiavam os tiros, algo que fez Beatriz refletir sobre o punitivismo daqueles tempos. “Num país onde ainda existem linchamentos e esquadrões da morte, o ideal seria que se chegasse ao castigo através da Justiça e da condenação pela lei, não pela morte”, disse a atriz ao GLOBO naquele ano.

— Uma leitura completa desses dados envolve diversas frentes, a começar pela desigualdade do país — diz a autora do remake, Manuela Dias. — Ela torna o dia a dia dos menos favorecidos tão duro que é visto como um castigo maior do que a própria morte. Como dramaturga, penso que desejar a punição de Odete é também uma forma de querer que ela não vá embora.

É bem verdade que a personagem angariou um afeto diferente do público. Não é raro encontrar, nas redes sociais e nas ruas, quem elogie, por exemplo, a vilã, chamando-a de “loba”, pelo exercício libertário de sua sexualidade e pela forma como conduz a família.

— Por mais que a Odete de 1988 fosse liberada sexualmente, ela não tinha a voracidade da de 2025 — diz o pesquisador Lucas Martins Néia, autor de “Como a ficção televisiva moldou um país”. — E, por causa de modificações em outros personagens, como Afonso, Heleninha e Tia Celina, o público dá razão ao comportamento que ela tem como esteio da família.

Por essas e outras, muita gente acredita que Odete sai dessa para uma melhor. Nas redes, onde discussões apaixonadas a favor e contra o remake acontecem desde antes de ele, efetivamente, ser feito, há quem aposte que a “loba” forjou a própria morte. Mas uma varrida pela imprensa de 1988 — quando repórteres correram atrás de pitacos de investigadores da monta do diretor-geral da Polícia Federal da época, tamanha era a obsessão do Brasil com o “quem matou Odete Roitman?” —não dá lastro a essa ideia. Em tempo: o então diretor da Polícia Federal, Romeu Tuma, cravou Marco Aurélio (Reginaldo Faria) como o nome mais plausível. Errou: a assassina foi a mulher dele, Leila (Cássia Kis), que atirou na vilã, sem querer, no apartamento onde a empresária recebia os amantes.

A especulação corre solta, mas não há absolutamente nenhuma pista sobre o que o público vai descobrir no próximo dia 17, quando a novela de Manuela Dias terminar. Amauri Soares, diretor dos Estúdios Globo, diz que o público vai se surpreender. E a autora detém-se a dizer que escreveu cenas para cinco suspeitos (dez finais, dois para cada um).

— Pelo meio da novela, comecei a descobrir quem iria matar Odete, mas escrevi há um mês e meio — conta a novelista, que tinha 11 anos na época do primeiro assassinato. — Acho que era muito pequena para ter minhas próprias apostas.

Além de Leila, o trio de autores de 1988 também pensou em outros cinco nomes para o grand finale: César (Carlos Alberto Riccelli), Marco Aurélio (Reginaldo Faria), Olavo (Paulo Reis), Queiroz (sócio de Renato na Tomorrow, vivido pelo ator Paulo Porto) e até Bruno, o filho de Leila e Ivan (Antônio Fagundes). O intérprete do menino era Danton Mello, com 13 anos na época.

—Não cheguei a gravar a cena, mas fui cotado —diz Danton. — Lembro de ter ficado amarradão, (pensando) “vou ser o cara que vai matar a mulher que o Brasil odeia”.

No dia 24 de dezembro de 1988, “Vale tudo” marcou 81 pontos no Ibope do Rio na hora da morte de Odete Roitman. A concorrência, naquele dia, era basicamente peru de Natal e presentes. Hoje, com as mudanças de hábito de consumo, a novela tem média nacional de 26 pontos, mas detém, segundo a Globo, o recorde histórico de alcance de usuários na plataforma de streaming Globoplay. A Globo comemora o interesse do público jovem no folhetim ao afirmar que 82% dos que se engajam com a hashtag “Vale tudo” nas redes têm de 18 a 34 anos.

O mercado publicitário também está satisfeito e vem investindo pesado, transformando a novela num produto recorde de faturamento no segmento. Só para a trama do assassinato, sete anunciantes criaram campanhas específicas. Um deles comprou uma ação para ser veiculada imediatamente após a cena da morte, diz a emissora.

Cenário bem diferente do de 1988, quando o maior burburinho publicitário vinha da Galinha Azul e seu caldo Maggi. A equipe de marketing do produto criou um concurso para sortear 5 milhões de cruzados (que valeriam, hoje, cerca de R$ 110 mil, de acordo com o IPCA, índice de inflação do IBGE) entre os acertadores do nome do criminoso. Das três milhões de cartas recebidas, só 6,3% votaram em Leila. O mais cotado, para não fugir do clichê, foi o mordomo Eugênio (Sérgio Mamberti), com 24%. Depois, apareceu o nome de Marco Aurélio, com 23%. Teria sido mesmo o personagem de Reginaldo Faria, não fosse um vazamento na imprensa, conta o diretor-geral da novela Dennis Carvalho. Por isso, Gilberto Braga precisou escolher, uma semana antes, outro desfecho. A gravação da cena final foi em 6 de janeiro de 1989, mesmo dia em que foi ao ar.

— Convoquei todo o elenco, fomos para o estúdio às 9h e fiz uma brincadeira, falando, solenemente, “vou revelar quem matou Odete Roitman” — diz Dennis. — Quando anunciei Cássia Kis, foram só aplausos. O pessoal foi para casa e começamos a gravar do zero às 13h.

Por causa da velocidade em que as informações se disseminam hoje, elenco e equipe só vão ter respostas junto com o público, no dia 17.

— Gravei com equipe reduzida a cena da morte muitas vezes, com vários possíveis assassinos — conta Débora Bloch. —Nem eu sei qual deles será o verdadeiro. Nós, atores, também só saberemos quando o Paulo Silvestrini (diretor artístico) editar o capítulo final e for ao ar.

fonte:https://oglobo.globo.com/

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