Foto: AFP
fonte: O Extra
Uma nova investigação jornalística reacendeu uma das acusações mais perturbadoras da Guerra da Bósnia: estrangeiros ricos teriam viajado até Sarajevo, nos anos 1990, para participar de uma espécie de “safári humano”, pagando milhares de dólares para atirar em civis durante o cerco da cidade.
As denúncias ganharam força após o lançamento do livro Pay and Shoot, do jornalista croata Domagoj Margetic. A obra reúne documentos atribuídos ao ex-oficial de inteligência bósnio Nedzad Ugljen, que investigava crimes ocorridos durante o cerco de Sarajevo.
Segundo os relatos, turistas estrangeiros — incluindo europeus, norte-americanos e canadenses — pagavam quantias elevadas para serem levados a posições de atiradores sérvios nas colinas que cercavam a capital bósnia. Os valores variavam conforme o “alvo”. Mulheres jovens, grávidas e crianças teriam sido consideradas “mais valiosas”.
Margetic afirmou que alguns desses homens “competiam para ver quem matava as mulheres mais bonitas”. Em um dos trechos mais chocantes da investigação, testemunhas alegam que até mesmo um integrante da realeza europeia teria participado das ações, chegando de helicóptero a bases próximas da cidade sitiada. Nenhum nome foi oficialmente confirmado.
O cerco de Sarajevo durou de 1992 a 1996 e é considerado o mais longo da história moderna. Mais de 10 mil pessoas morreram sob bombardeios e tiros de sniper durante a guerra da Bósnia. Civis atravessavam ruas correndo para escapar dos disparos constantes vindos das montanhas ao redor da cidade.
As acusações sobre os chamados “safáris humanos” circulam há décadas, mas voltaram ao centro do debate após o documentário Sarajevo Safari, lançado em 2022. O filme reuniu testemunhos de ex-militares, sobreviventes e investigadores sobre a suposta presença de estrangeiros armados em áreas de combate.
Na Itália, promotores abriram uma investigação para identificar possíveis cidadãos italianos envolvidos no esquema. Em fevereiro deste ano, um ex-caminhoneiro de 80 anos passou a ser investigado por suspeita de participação nas execuções.
Apesar da repercussão internacional, muitas das alegações ainda não foram comprovadas judicialmente. Historiadores e especialistas apontam que a dificuldade em reunir provas, três décadas após a guerra, torna a apuração complexa. Ainda assim, os relatos reforçam o nível extremo de brutalidade e desumanização vivido durante o conflito nos Bálcãs.
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