Campanha
reforça a importância da testagem, vacinação e tratamento precoce para evitar
cirrose, insuficiência hepática e câncer de fígado
São Paulo, julho de 2026 - O Brasil registrou mais
de 826 mil casos confirmados de hepatites virais entre 2000 e 2024, segundo
dados do Ministério da Saúde. As infecções, causadas pelos vírus das hepatites
A, B, C, D e E, atingem o fígado e podem evoluir de forma silenciosa,
especialmente nos casos das hepatites B e C. Quando não diagnosticadas e
tratadas, podem levar a complicações graves, como cirrose, insuficiência
hepática e câncer de fígado.
O alerta ganha força durante o
Julho Amarelo, mês dedicado à conscientização sobre as hepatites virais. Apesar dos
avanços na prevenção, diagnóstico e tratamento, ainda há muitas dúvidas e
informações equivocadas sobre a doença.
De acordo com Tassiana Galvão,
infectologista da Santa Casa de São Roque - unidade da Prefeitura do município e gerenciada pelo CEJAM - Centro de Estudos e Pesquisas “Dr.
João Amorim”, a ausência de
sintomas não deve ser interpretada como ausência de risco.
“A hepatite é perigosa justamente
porque, muitas vezes, não dói, não dá febre, não deixa a pessoa amarela e não
manda aviso. Ela pode comprometer o fígado por anos em silêncio. Esperar
sintoma aparecer é uma estratégia ruim e, em alguns casos, pode significar
descobrir a doença tarde demais”, afirma.
Segundo a infectologista, a testagem é
uma das principais ferramentas para interromper o ciclo de diagnóstico tardio.
Muitas pessoas só descobrem a infecção ao doar sangue, durante exames de
rotina, no pré-natal ou quando já existe alteração hepática.
“O teste é simples, mas pode mudar
completamente o destino de uma pessoa. Na hepatite C, o diagnóstico pode abrir
caminho para a cura. Na hepatite B, permite acompanhamento e controle antes que
o fígado sofra danos irreversíveis”, explica Tassiana.
A seguir, a especialista esclarece
mitos e verdades sobre as hepatites virais.
- “Se eu tivesse hepatite, eu
saberia.”
Mito.
Muitas pessoas com hepatites virais, principalmente B e C, não apresentam
sintomas por anos. A ausência de sinais não significa que o vírus não esteja
causando danos ao fígado.
“Esse é um dos mitos mais perigosos. A
pessoa se sente bem, trabalha, leva uma vida normal e acredita que está tudo
certo. Mas a hepatite pode estar evoluindo em silêncio. O corpo nem sempre dá
sinais claros antes de uma complicação”, alerta a infectologista.
- “Hepatite sempre deixa pele e
olhos amarelos.”
Mito.
A icterícia, caracterizada pelo amarelamento da pele e dos olhos, pode ocorrer,
mas não aparece em todos os casos. Algumas pessoas têm sintomas inespecíficos,
como cansaço, náuseas, dor abdominal, urina escura, fezes claras e perda de
apetite. Outras não sentem nada.
“Esperar ficar amarelo para investigar hepatite
é um erro. A pele amarela pode aparecer, mas não é regra. Muitas vezes, quando
os sinais ficam evidentes, a doença já está mais avançada”, afirma.
- “Hepatite C tem cura.”
Verdade.
A hepatite C tem tratamento altamente eficaz e pode ser curada na maioria dos
casos. Os medicamentos atuais são mais simples, seguros e com altas taxas de
resposta.
“Hoje temos tratamento,
possibilidade de cura e temos como evitar que essa infecção evolua para cirrose
ou câncer de fígado. O gargalo é encontrar quem ainda não foi diagnosticado”,
destaca.
- “Hepatite B não é grave se a
pessoa não sente nada.”
Mito.
A hepatite B pode se tornar crônica e causar lesões progressivas no fígado,
mesmo sem sintomas. Em alguns casos, pode evoluir para cirrose e câncer
hepático.
“Sentir-se bem não é garantia de que o
fígado está protegido. A hepatite B pode ser silenciosa e ainda assim grave.
Por isso, vacina, teste e acompanhamento médico são fundamentais”, explica a profissional.
- “A vacina contra hepatite B
também ajuda a prevenirahepatite D.”
Verdade.
A hepatite D depende da presença do vírus da hepatite B para ocorrer. Por isso,
ao prevenir a hepatite B, a vacinação também reduz o risco de hepatite D.
“A hepatite D pode ser muito agressiva.
A melhor forma de enfrentá-la é impedir a hepatite B, através da vacinação”.
- “Existe vacina para todos os
tipos de hepatite viral.”
Mito.
Existem vacinas contra as hepatites A e B, mas não há vacina disponível contra
hepatite C. Para esse tipo, a prevenção depende de testagem, tratamento e
redução de situações de risco.
“A hepatite C não tem vacina, mas tem
cura. Isso torna o diagnóstico ainda mais importante”, pontua.
- “Alicate de unha, lâmina de
barbear, tatuagem e piercingem contato com sangue contaminadopodem transmitir hepatite.”
Verdade.
Objetos que entram em contato com sangue contaminado podem
transmitir hepatites virais se forem compartilhados ou não forem esterilizados
corretamente. O cuidado vale para manicures, barbearias, estúdios de tatuagem,
piercings e procedimentos estéticos invasivos.
- “Relação sexual sem
preservativo pode transmitir hepatite B.”
Verdade.
A hepatite B pode ser transmitida por via sexual. O uso de preservativo e a
vacinação são medidas importantes de prevenção.
“A hepatite B é uma infecção sexualmente
transmissível. Muita gente não associa hepatite a sexo desprotegido, mas essa é
uma via real de transmissão”, alerta a infectologista.
- “Exames de rotina do fígado
normais descartam hepatite.”
Mito.
Exames como TGO, TGP e outras enzimas hepáticas ajudam a avaliar o fígado, mas
não substituem testes específicos para hepatites virais. Em alguns casos, a
pessoa pode ter hepatite mesmo com alterações discretas ou resultados
momentaneamente normais.
- “Quem recebeu transfusão de
sangue há muitos anos deve considerar fazer teste para hepatite C.”
Verdade.
Pessoas que receberam transfusão de sangue ou hemoderivados antes da
implementação de triagens mais rigorosas devem conversar com um profissional de
saúde sobre a necessidade de testagem.
“Há pessoas que foram expostas décadas
atrás e nunca imaginaram que poderiam ter hepatite. O teste é uma forma de
resgatar esses diagnósticos antes que virem complicações”, destaca.
- “Hepatite é problema apenas de
quem usa drogas ou tem muitos parceiros sexuais.”
Mito.
As hepatites virais podem atingir diferentes perfis de pessoas. Associar a
doença apenas a determinados grupos aumenta o estigma e pode afastar a
população da testagem.
“Quando a sociedade coloca a hepatite
dentro de uma caixinha moral, perde-se a chance de diagnosticar muita gente. O
vírus não se importa com rótulos”, afirma a infectologista.
- “Hepatite A pode estar
relacionada à água e alimentos contaminados.”
Verdade.
A hepatite A é transmitida principalmente pela via fecal-oral, muitas vezes por
água ou alimentos contaminados e por higiene inadequada das mãos. Medidas como
lavar bem as mãos, consumir água tratada e higienizar alimentos ajudam na
prevenção.
- “Beber álcool é a única forma
de desenvolver cirrose.”
Mito.
O consumo excessivo de álcool é uma causa importante de doença no fígado, mas
não é a única. Hepatites virais crônicas, especialmente B e C, também podem
levar à cirrose e ao câncer hepático. Além disso, o álcool pode agravar a
evolução de quem já tem hepatite.
“A ideia de que só o álcool destrói o
fígado é falsa. Vírus também podem causar dano progressivo e grave. A diferença
é que, quando diagnosticamos cedo, conseguimos intervir antes que a doença
avance”, ressalta.
- “Gestantes devem fazer teste
para hepatites.”
Verdade.
A testagem durante o pré-natal é fundamental, especialmente para hepatite B,
devido ao risco de transmissão da pessoa gestante para
o bebê. Com diagnóstico adequado, é possível adotar medidas para reduzir esse
risco.
Durante
o Julho Amarelo, a recomendação é que pessoas que nunca fizeram
testes para hepatites B e C, que não sabem se estão vacinadas contra hepatite B
ou que tiveram qualquer situação de risco procurem uma unidade de saúde — a testagem e a vacinação estão disponíveis gratuitamente
pelo SUS.
Também é importante manter o uso de
preservativo, não compartilhar objetos cortantes ou perfurantes, exigir
materiais descartáveis ou esterilizados em procedimentos estéticos e realizar o
pré-natal completo no caso de gestantes.
“A hepatite pode ser silenciosa, mas o
diagnóstico não precisa ser tardio. O Julho Amarelo existe para
lembrar que informação, vacina e testagem salvam vidas. Quem nunca testou deve
procurar orientação. Esse cuidado pode evitar uma complicação grave no futuro”,
finaliza a médica.

Nenhum comentário:
Postar um comentário